A Filha do Tempo – Capítulo 4 – Confrontado pelo passado

No quarto capítulo de “A Filha do Tempo”, Rod se depara com uma grande ameaça aos alunos do Juarez. Percebendo que Deb será a primeira vítima, ele é o sr. João partem para resgata-la, e se deparam com criaturas saídas dos piores pesadelos.

A Filha do Tempo

Rod

Cara, eu não sei o que era pior: estar em uma peça de teatro de química ou ser cotado para o papel de CO2. Ter a nota do bimestre decidida por uma peça de teatro era a coisa mais perturbadora que eu vi.

Hum…. Não, não é a coisa mais perturbadora que vi. Já vi coisas bem macabras… Enfim, fazer o quê? Na verdade, a ideia do professor até que foi legal. O pessoal ficou mesmo empolgado. Mas eu não me acho bom para atuar, podia até estragar tudo.

Bem, teve aquela vez em que fiz parte do teatro da igreja, que foi sobre o nascimento de Jesus. Fui muito bem, modéstia a parte…

O melhor cidadão de Jerusalém coadjuvante que já viram (palavras da minha mãe, seguidas de um resmungo do meu pai). Mas eu tinha 6 anos, então dá para duvidar um pouco disso.

Quando sai da Igreja Batista Betel e fui para a Igreja Metodista Betel, acabei me envolvendo em outra peça de teatro. Eu já era mais velho, com 13 anos, e minha mãe ficou na igreja antiga. Não tinha ninguém para me dar parabéns duvidosos, e até que me sai mais ou menos. Mas essa não é minha área.

Eu curto música, tocar violão, teclado, guitarra… Apesar de saber tocar bem, mesmo, só teclado. O resto eu toco de teimoso. Mas quando o professor disse que estava pensando em trilhas musicais para a peça, não pensei duas vezes e me ofereci. Era melhor tocar teclado na escola do que fazer papel de CO2 – e se vestir com uma fantasia disso, embora eu nem quisesse pensar em como seria tal roupa.

Na verdade, foi bom o professor Tibúrcio levantar a ideia da trilha sonora apenas hoje. Eu não estava com cabeça para tocar, depois do sonho que tive.

Não foi um sonho avulso… Foi uma lembrança, algo que realmente aconteceu ano passado, logo depois da minha… Bem, última missão com o pessoal do centro de treinamento que eu frequentava.
Eu estava no Rio de Janeiro com o time de basquete da nossa cidade, o São José Esporte Clube. Seria um jogo amistoso contra o Flamengo. Resumindo: seríamos derrotados.

Eu acompanhava o pessoal porque o meu primo Cezar estava no time, e eles precisavam de uma galera pra fazer volume na torcida. Ser líder de torcida sempre foi meu sonho secreto, e agora eu estava realizando – só que não.

Chegamos cedo no ginásio, faltando uma hora para o início da partida. Eu sentei com umas 30 pessoas, a maioria meninas que torciam mesmo para os garotos – para os garotos, não para o time, se é que me entendem.

Estava tudo bem, dentro do possível naquela ilustre situação, até que ela chegou. Eu nunca tinha encontrado um deles antes, e sentir aquela intensidade, todo aquele poder, foi tenso.

Eu conheci pessoas poderosas, enfrentei pessoas poderosas. Mas aquilo estava em um nível completamente diferente. Ela chegou e simplesmente sentou ao meu lado. Eu sabia que ela era um deles.

– Então, sobrinho – ela começou. – Você fez um bom trabalho com aqueles garotos, selando aqueles caras manés, e blá, blá, blá. Estou aqui para te dar os parabéns.

Apesar de não saber como agir naquela situação, não pude deixar de franzir as sobrancelhas. Ela não se daria ao trabalho de vir até onde eu estava apenas para me parabenizar.

Então ela notou algo em mim. Deu para ver o rosto dela tomado pela surpresa. Erguendo as sobrancelhas, ela disse:

– Como está fazendo isso? Quem te ensinou?

– Fazendo o quê? Perguntei confuso.

– Bloqueando seus pensamentos. Ou vai me dizer que está fazendo isso involuntariamente?

Pensei por alguns momentos.

– Eu realmente não sei sobre o que você está falando, mas seja lá o que for, não, não é intencional.

Ela me avaliou por algum tempo. Seus olhos azuis e frios pareciam estudar cada respiração minha..

– E você é? Arrisquei.

Ela sorriu como se fosse minha melhor amiga, o que me deixou imediatamente com o pé atrás.

– Sou sua tia.

Me segurei para não rolar os olhos. Eu era adotado, mas conhecia meu pai verdadeiro – pelo menos de nome. E pelo que já tinha ouvido falar sobre sua família, essa garota – que não aparentava ter mais do que quinze anos, mas eu sabia ser mais velha – dizer que era minha tia a colocava em uma lista de, pelo menos, umas vinte pessoas. Isso se não fosse tia-avó, aí, complicava tudo.

– Hum… E seu nome é?

Ela suspirou, e vi que ficou irritada.

– Olha aqui garoto, você está desviando o foco de nossa conversa, que no caso é você. Vim aqui falar sobre seu pai.

Aquilo chamou minha atenção. Em tudo que já passei no meu centro de treinamento, nunca falei com meu pai ou recebi algum recado dele.

– Seu pai e eu – continuou a garota – precisamos que você fique de olho na cidade onde mora. Uma garota aparecerá por lá.

Olhei para ela já perdendo a paciência.

– Você tem noção de existem 700.000 pessoas morando em São José dos Campos? E você quer que eu espere uma garota que aparecerá por lá?

– Não pode ser tão difícil assim.

– E porque você ou meu papai não fazem isso?

Foi quando percebi que tinha passado dos limites. Normalmente não sou assim, impaciente e respondão. Sou bem zen, na verdade. Mas lidar com a família do meu pai era complicado. Muito complicado. E eu percebi que não estava pronto para aquilo.
No sonho, a garota se transformou em um macaco cor de rosa e saiu dançando hula-hula. Mas naquele dia, a conversa engrossou e terminou mal, muito mal.

Eu estava lembrando do sonho, pensando em como seria bom que minha tia se transforma-se em um macaco cor de rosa e levasse meu passado nos passos da hula-hula, quando senti. Diferente da presença que vinha sentindo nos últimos dias, aquilo foi algo sanguinário, uma sede de sangue que eu não via a meses.

Então, o sr. João entrou na sala, pedindo para o professor Tibúrcio liberar a Deb para ir à sala da diretora. Foi quando eu pensei, “cara, foi só uma coincidência… não pode ter relação entre o que ela pediu e a Deb…”.

Enquanto ela saia, fiquei olhando para ver se ela estava sentindo a mesma coisa que eu. Porque, se tinha algo que eu tinha certeza, era de que ela e a Pri tinham sentido a mesma presença que eu, no primeiro dia de aula. Elas eram como eu, por isso me aproximei.

Por incrível que pareça, quem deu a deixa foi o sr. João. Ele me olhou, apertou os lábios. Fez uma série de gestos que eu conhecia muito bem: bateu uma vez no peito, mostrou o número um e fechou a mão bem forte.

Era uma sequência de sinais para usarmos no meio das pessoas normais, que não pertenciam ao nosso mundo. Bem perto há um inimigo muito poderoso.

Fiz menção de levantar mas o sr. João balançou a cabeça dizendo não. Nisso, a Deb chegou nele e eles saíram.

O que eu devia fazer? Será que dava tempo de avisar alguém do centro? Não, não daria tempo. Teria que resolver sozinho.

Levantei uns cinco minutos depois da Deb sair e fui falar com o professor Tibúrcio, que estava no meio da sala com a galera responsável pelo enredo da peça.

– Professor, posso ir ao banheiro?

Ele nem virou quando perguntei.

– Claro, claro. Só não demore muito. Então você quer que Potássio seja trancafiada na torre de Cobalto? Certo, mas…

Como eu não pretendia prender Potássio, julguei que minha presença não era mais solicitada. Avisei Pri que ia ao banheiro – apesar de não saber porque raios eu fiz isso – e sai da sala.

Corri para o banheiro as escadas, pois a diretoria ficava no 2° andar e nossa sala no 3°. Mas em vez de ir para a sala da diretora, dei a volta por fora, para ver pela janela o que acontecia.

Foi meu grande erro. Assim que cheguei perto da quadra, posso dizer que meu sentido aranha explodiu. Eu senti a presença dos monstros antes de vê-los, sabia que eram muitos. Mas antes que eu pudesse fazer alguma coisa, uma luz intensa me segou por alguns segundos. Quando a luz foi se apagando, ouvi um homem gritar de dor.

Quando consegui enxergar, vi uma luta acontecendo. Dois serpentianos estavam curvados sobre um homem.

Os serpentianos são uma raça de lagartos humanóides, com o corpo coberto por pele de réptil amarela. Os braços e pernas terminam em garras de três dedos afiados. Suas caras amassadas tinham dois olhos de cobra, dois buracos para respirar e um focinho projetado que lembrava uma serpente. Seus dentes eram pequenos, mas muito afiados.
Demorei um pouco para entender o que estava acontecendo. Os serpentianos arranhavam o que parecia ser uma barreira invisível, tentando chegar até o sr. João. Ele suava, e suas forças pareciam prestes a acabar.

Me concentrando, convoquei meu arco e minha aljava de flechas. Encaixei duas flechas no arco, mirei, e respirando fundo, soltei. As duas atingiram o alvo, que eram as cabeças dos monstros.

Eles se debateram e começaram a desaparecer. Eu sabia que não os matara. Apenas os feri o bastante para que não pudessem se materializar em nossa dimensão novamente.

Corri até o sr. João é o ergui com cuidado.

– Sr. João, o senhor está bem?

Ele respirou fundo algumas vezes. Percebi que sangrava de um golpe nas costas e uma mordida na perna.

– Vá… Vá até a… Vá à diretoria.

Eu não podia deixar ele ali, o cara poderia morrer. Eu quase esqueci o porquê de estar ali, quando senti um poder maligno imenso se manifestar.

O sr. João arregalou os olhos.

– Vá logo! A rainha está com a menina. Ficarei bem. Vá semideus!

Bem, se o fato de eu dizer que eu tinha uma tia que parecia ter quinze anos mas tinha bem mais, e convocar armas do nada – além de dizer que eu sentia a presença de outros seres poderosos – não te deu nenhuma dica, a frase vá semideus com certeza te deu uma ideia do que eu sou, certo?

E para meu desespero, tive que deixar o sr. João. Para você entender, serpentianos vivem em clãs. Cada clã tem uma rainha e vários machos guerreiros. Se a rainha estava ali, significava que queria transformar a escola em sua morada. Muitos alunos novos e saudáveis para alimentar sua prole.

E por todos os deuses, ela começaria com a Deb.

Eu corri, e quando chegava na esquina, onde viraria e chegaria à janela da diretora, senti uma magia poderosa. Eu simplesmente travei no lugar. Durou só um segundo, e fui liberado.

Quando virei a esquina, uma onda de chamas explodiu a janela da diretoria. Parecia mais uma porta, de tão grande.

Hum… Era uma porta.

Eu cheguei com cuidado e entrei. A Deb estava deitada no chão, desacordada. Fui até ela e medi seus batimentos. Estava viva, graças a Deus. Mas notei um marcas de garra serpentiana em torno de seu pescoço.

– A rainha está morta – sussurrei.

– Carbonizada. Um elemental do fogo sacrificou sua permanência aqui para acabar com o monstro.

Olhei para trás e vi o sr. João e uma outra moça parados na porta. A moça vestia roupa de enfermeira. Devia ser a enfermeira da escola.

E sim, cheguei a esta brilhante conclusão sozinho.

– Você viu quem mandou o elemental do fogo, semideus? – Ela me perguntou.

Balancei a cabeça que não, tentando entender quem eles eram. Eu não sentia a presença deles, mas se sabiam que eu era um semideus, pertenciam ao meu mundo. Ao mundo que eu queria esquecer e estava fazendo um péssimo trabalho sobre isso.

– Certo – disse o sr. João. – Rorigo, não é? Ajude Angélica a levar a… garota para a enfermaria. Lá ela estará a salvo. Eu cuido de arrumar as coisas por aqui.

A enfermeira, Angélica, pareceu preocupada.

– Você ainda não está forte o bastante. A magia de cura que administrei foi rápida demais, apenas para cuidar do superficial.
Ele sorriu, cansado.

– Não se preocupe. Ainda tenho magia suficiente para cuidar disso. Agora vão, levem a garota para um lugar seguro.
Sem mais perguntas, fiz minhas armas desaparecerem, o que pareceu divertir Angélica.

– Sabe garoto – disse ela, fazendo uma maçã surgir do nada com um floreira da mão, – enquanto esperamos ela acordar, vou te ensinar uma ou duas coisas que te ajudarão muito.

E assim fomos para a enfermaria, com Angélica matracando sobre coisas que não me importavam e eu fingindo estar interessado, enquanto empurrava a maçã da Deb e pensava o que faria para protegê-la.

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